93 ANOS DE HISTÓRIA!

Por Thiago Teixeira
 
O Esporte Clube São Bernardo, fundado em 3 de Fevereiro de 1928, é o clube mais antigo do ABC Paulista em atividade. O Cachorrão foi criado como sucessor da Associação Atlética São Bernardo (de 1917), extinta em 1922. No período 1922-1928, o futebol de São Bernardo do Campo se resumiu a pequenos clubes “de várzea”, que disputavam um festival de futebol a cada Dia do Trabalhador (1 de Maio). Observando esses eventos, Dante Setti propõe a ideia de criar um novo clube, que pudesse congregar todos os esportistas e torcedores da cidade em torno de uma única agremiação.
 
A Ideia foi muito bem recebida por três jovens, todos, ex-jogadores da AA São Bernardo e do Internacional FC, antecessores do que viria a ser o São Bernardo: Nerino Colli, Vicente Ragghianti e Itagiba de Almeida. Estes, correm a cidade convocando uma reunião, a ser realizada no velho Cine Enrico Caruso (depois, Cine São Bernardo) a Rua Marechal Deodoro. A Reunião, que começou no dia 2 de Fevereiro, só foi terminar no dia 3, quando é fundado oficialmente o Esporte Clube São Bernardo.
 
A ata de fundação do clube, é contada da seguinte maneira: “Ás 21 horas do dia 3 de Fevereiro de 1928 foi aberta a sessão sob presidência do sr. Humberto Coppini, secretariado pelo sr. Nerino Colli e com a presença dos srs. Armando Setti, Antônio Miele, Armando Périgo, Agostinho Campi, Angelo Rinaldi, Antônio Pasin, Ernesto Masini, Jamil L.Haddad, João Furganholi, Dante Setti, João Corazza, José Cruchaski, José Monteiro, José Cassettari Sobrinho, Geraldo di Fávari, Luiz Pasin, José Pasin, João Périgo, Benedicto Machado, ClaudionorMarques, Innocente Corazza, Olympio Bassani, Orlando Setti, Francisco Camarotta, Valentim Próspero, Antonio Bueno, Hygino de Lima, Renzo Amadei, Caetano Zoboli, José Marotti, Alberto Senson, João Zanini, Benedicto de Almeida, Antonio de Fávari, Galdino da Silva, João Gerbelli, José Duzzi, Antonio Dial, Fernando Lotto, Antonio Salvador, Estevam Sabatini, Dario Setti, Antonio Margonari, Affonso Parsani, Antonio Mesquita, Antonio Duzzi, Alcides de Almeida, Carlos Miele, Ernesto de Souza, Ervelino Gerbelli, José Delegá, José Corazza, Jarbas Sebastião de Almeida, Jorge Calaf, Itagyba de Almeida, Messias de Alencar e Paulo Frantz. Foi, então, eleita a sua primeira directoria, que ficou assim constituída: Presidente, João Corazza; vice-presidente, Américo Mazza; tesoureiro, Alfredo Périgo; 1 secretário, Alcides de Almeida; 2 secretário, Nerino Colli; conselheiros, Antonio Margonari, Alberto Ascensio e Antonio Miele. Comissão esportiva: Antonio Pasin, Olympio Bassani e José de Souza.
 
Passou-se, em seguida, a votação do nome que seria dado ao novo clube, sendo que venceu o de ‘Esporte Clube São Bernardo’ por vinte e seis votos contra vinte e um o de ‘Associação Athlética São Bernardo”, não contando outras denominações, que tiveram votação mínima. Não havendo outros assumptos a tratar foi empossada a diretoria eleitoral, encerrando-se a sessão. Nesta Villa de São Bernardo, Município de São Bernardo, 3 de Fevereiro de 1928.”
Graças a abnegação de sócios e interessados, o São Bernardo rapidamente se consolida entre as maiores potências do futebol da região, junto a clubes mais antigos como Primeiro de Maio FC, Corinthians FC (Santo André), Ribeirão Pires FC e São Caetano EC. Já em 1931, reconhecido por mais de 58.000 votos em um concurso realizado pelo antigo Diário Nacional, jornal de alcance nacional editado em São Paulo, o clube recebe o título de “O Mais Simpático do Interior”, este, até hoje usado em documentos e carteirinhas do ECSB. O “Título” conquistado eleva o status do São Bernardo, agora, chamado para diversas partidas pelo interior do Estado de São Paulo e até mesmo fora dele. Foi o “cachorrão” o primeiro clube de São Bernardo do Campo a realizar uma partida fora do Estado. Em Maio de 1930, o clube foi ao triângulo mineiro, onde jogou contra as equipes do Uberlândia EC e do Uberaba EC.
 
Ainda nos anos 30, o clube decide ingressar nas competições então existentes, passando a disputar o Campeonato Paulista do Interior (atual Campeonato Paulista Amador). Estes campeonatos tinham suas agremiações divididas regionalmente, em “zonas” ou “setores”. Somente os campeões (as vezes campeão e vice, dependendo do ano) avançavam as próximas fases, onde enfrentavam clubes de outras regiões. Em 1939, o São Bernardo foi o campeão de sua zona, que envolvia todo o ABC além do Litoral e região de Mogi das Cruzes, geralmente. O Clube viria a repetir o feito de maneira ainda mais brilhante na década seguinte, onde foi tricampeão de sua zona, em 1947, 1948 e 1949.
 
Nos anos 40, o clube concretiza a doação do terreno onde tinha seu campo desde a fundação. O Velho campo já era usado pela Associação Atlética São Bernardo, que propôs a compra junto ao proprietário, Ítalo Setti. Ítalo era industrial, um dos imigrantes italianos que mais prosperaram em São Bernardo, e também se dedicava a filantropia, sendo um dos maiores beneméritos não só do clube, como de toda a cidade. Simpático a idéia do clube, aceitou a proposta de compra da AASB. Porém, com dificuldades, a última parcela de (na época) sete contos de réis, não foi paga. (um conto de réis equivale hoje, aproximadamente, a R$ 123.000,00).
Mesmo com o campo “meio pago”, este continuou a ser utilizado desde o fim da AASB, passando pelo período 1922-1928 e pela fundação do São Bernardo até 14 de Junho de 1941, quando o presidente do ECSB, Constantino Tondi, recebe do Sr.Ítalo Setti a doação em escritura dos 16.000 m2 que compunham o terreno. O Benemérito fez apenas duas exigências: o estádio deveria ter o nome dele, e o clube deveria se manter em atividade.
 
Ainda nos anos 40, o clube promove melhorias no campo e também passa por mudanças que, mais uma vez, o elevariam de patamar. É nessa década que chega a São Bernardo do Campo a Família Lago, vinda de São Paulo, e que iria, através dos irmãos Ubaldo, Maneco, Flávio, Olavo e Adhemar, implantar o basquete na cidade, modalidade que posteriormente traria vários títulos e glórias ao Bernô. Fechando a década, em 1949, o clube cria o seu Departamento de Futebol Profissional. Ao menos por enquanto, seria o fim do período amador, que o clube vinha vivendo desde sua fundação.
 
Já em 1950, na gestão do presidente Joaquin Ferreira Netto, o clube ingressou na disputa da segunda divisão de profissionais, da Federação Paulista de Futebol, a atual Série A2 do Campeonato Paulista. Consumindo muitos recursos, essa primeira fase do profissionalismo durou até 1954, apenas. Em 1959, na gestão de Sílvio de Oliveira Lima, o Bernô adotou uma medida interessante para arrecadar fundos: trazia para partidas amistosas os grandes clubes do Estado para jogar no Estádio Ítalo Setti. Assim, nesse ano, o ECSB recebeu em seus domínios o Santos FC, S.C.Corinthians Paulista, São Paulo FC, SE Palmeiras além da Portuguesa de Desportos e do CA Ypiranga. As receitas com as bilheterias permitiam ao clube pagar as despesas geradas pela disputa das competições profissionais. Entre idas e vindas, o futebol profissional seguiu nessa fase até 1967, quando o clube sofre um duro golpe: a desapropriação de parte da área do estádio para a canalização do Ribeirão dos Meninos e a abertura da futura Avenida Brigadeiro Faria Lima. Assim, o Estádio Ítalo Setti, o único da cidade até aquela época, conheceria seu fim. O sistema de iluminação, pioneiro no ABC, havia sido inaugurado apenas sete anos antes. Sem campo, o clube se desliga do futebol, concentrando suas atividades na expansão de outros esportes, como o basquete, e passa a concentrar seus esforços na ampliação e na melhoria de suas instalações.
Em 1967, um grupo de jovens atletas formado no próprio clube idealiza a construção de um ginásio. Idéia tida como “loucura”. Através de diversas campanhas de doação realizadas em S.Bernardo do Campo, como as campanhas do “tijolo”, das “telhas” e do “cimento”, o clube inaugura em 1968 o Ginásio Moysés Cheid, a época, o maior da cidade e entre os melhores de toda a região. Nesse mesmo ano, o Esporte Clube São Bernardo também inaugura suas piscinas.
 
O Período após a inauguração do ginásio motiva um desenvolvimento ainda maior do basquete no clube. É nessa época que Ubaldo Lago cria escolinhas masculinas e femininas, conquistando títulos regionais, estaduais e até nacionais, além de revelar para o basquete nacional atletas como Paulo Cheidde, que chegou a seleção brasileira e a presidência da Federação Paulista de Basquete. Nos anos 70, o São Bernardo possuía a maior escolinha de basquete do Brasil.
 
Em 1978, o clube comemora seu cinquentenário fora do futebol. Nessa época, quem representava São Bernardo do Campo na modalidade era o Aliança Clube, equipe fundada em 7 de setembro de 1969 como uma equipe amadora, alcança um sucesso meteórico: já em 1976 disputava o quadrangular final da Série A2 do Campeonato Paulista. Porém, já sentia dificuldades financeiras e materiais para o seu prosseguimento, o que levou as diretorias de ambos os clubes a acertar um processo de fusão, em 1981: O São Bernardo absorveria o Aliança, voltaria aos gramados, e num planejado processo de transição (que duraria oficialmente de 1982 a 1989) o clube adotaria uma listra azul em seus uniformes, além de duas alianças encimando o distintivo do São Bernardo.
 
O período 1982-1989 é certamente o mais profícuo da história do Esporte Clube São Bernardo no futebol. Já em 1982, o clube quase alcança o quadrangular final, mas é derrotado pelo Bragantino no Parque Antártica. Em 1984 e 1985, mais uma vez o clube perde a chance de chegar ao quadrangular final. Em 1986, com uma derrota dolorida para o Bandeirante de Birigui, o clube perde o acesso nos minutos finais da partida, disputada no Estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas.
 
Em 1989, o clube descende da segunda (A2) para a terceira divisão (A3), onde permaneceria até 1993. Em 1993, o clube conquista o acesso a Série A2 em campo, contando com os préstimos de Luís Pereira, célebre zagueiro do São Bento, Palmeiras, Atlético de Madri e da Seleção Brasileira, sagra-se vice-campeão. No ano seguinte, a Federação Paulista de Futebol reorganiza suas divisões e o número de participantes e cancela o acesso do São Bernardo e dos demais clubes que conquistaram o acesso legalmente.
 
 
O duro golpe provoca novo desestímulo no futebol e no próprio clube, que acaba rebaixado em 1994, e que vai sucessivamente caindo até 2002, ano em que o São Bernardo pede licença das competições da FPF. Nesse período, o clube se limita apenas a disputa do Campeonato Paulista Sub 20 – Segunda Divisão, a partir de 2003. Em 2010, o clube anuncia seu retorno as competições profissionais. No mesmo ano, a equipe Sub-20 chega ás semifinais do campeonato, onde acabaria se sagrando campeã, em 2011. O quadro profissional disputa a segunda divisão do Campeonato Paulista, equivalente a quarta divisão, de onde o clube só sairia em 2017, quando se sagrou vice-campeão do torneio.
 

A Gênese

Embora aceitem como oficial, nos tempos atuais é de conhecimento de muitos que, o futebol no Brasil, não tem apenas uma origem, e sim muitas. As dimensões continentais do nosso território, além da falta de comunicação entre os Estados, levou o esporte a ter, nas várias regiões do Brasil, diversos introdutores e pioneiros. Charles Miller, em São Paulo; Oscar Cox, Thomas Donohoe e outros, no Rio de Janeiro; Guilherme de Aquino, em Pernambuco; Johannes Minerman e Richard Woelckers, no Rio Grande do Sul; Vito Serpa, em Minas Gerais, entre outros.

O Pioneirismo de Miller é aceito também pelo fato de este não só ter introduzido o esporte, como também as suas regras e bolas oficiais, além de ter criado o primeiro campeonato organizado do País: em 1902, do qual foi primeiro artilheiro, campeão e que resiste até os nossos dias: o Campeonato Paulista. No entanto, mesmo a pequenas distâncias da Capital Paulista, podemos documentar outra experiência pioneira com o futebol. Porém, se faz necessário compreender como se organizava o espaço geográfico de nossa região neste período.

Em fins do Século XIX, mais precisamente até o ano de 1889, toda a região compreendida atualmente pelos sete municípios que compõem o Grande ABC (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra), ainda eram território pertencente ao Município de São Paulo. Porém, em 12 de Março de 1889, através da lei 38, sancionada pelo Presidente da Província de São Paulo, Pedro Vicente de Azevedo, é criado o Município de São Bernardo, abrangendo todas as atuais cidades do ABC e que tinha por “centro”, a Freguesia de São Bernardo, atual São Bernardo do Campo.

A separação da Capital era um pleito antigo, que ganhou força graças a chegada dos imigrantes (a partir de 1887) e da implantação da ferrovia (São Paulo Railway, em 1867). O Município de São Bernardo nasceu com os seguintes bairros/povoações: Estação São Bernardo (atual Santo André), São Caetano (atual S.Caetano do Sul), Vila Conceição (atual Diadema), Pilar (atual Mauá), Ribeirão Pires, Rio Grande (atual Rio Grande da Serra) e Alto da Serra (atual Paranapiacaba). Embora territorialmente pertencente ao Município de São Bernardo, o bairro do Alto da Serra (atual Paranapiacaba), mantinha total independência administrativa, pois era uma vila primordialmente particular, de propriedade da São Paulo Railway. Ela surgiu com a abertura da ferrovia, em 1862, quando a “Parte Alta” da vila passou a ser ocupada por operários da construção, comerciantes, e toda as pessoas necessárias da época para construir e operar o trecho. Quando a ferrovia começou as obras de duplicação de sua linha, entre 1896 e 1901, a direção da São Paulo Railway resolveu regularizar toda a povoação, que mais parecia um acampamento provisório. Para atrair trabalhadores, a nova vila teria toda a comodidade possível: água encanada, ruas calçadas, escolas, hospitais, fornecimento de alimentos, além das próprias habitações.

Essa vila, cujos estudos preliminares nasceram em 1890, ligam uma origem do futebol à São Bernardo: o plano da Vila já possuía um campo de futebol, inaugurado antes da primeira partida oficial organizada por Charles Miller na Capital (que também contou com funcionários ingleses, em sua maioria, da própria São Paulo Railway). Presume-se que aí, em território originalmente de São Bernardo, é que se tenha disputado uma das primeiras partidas de futebol em solo brasileiro. O Campo, curiosamente, existe até hoje. Foi usado pelo Serrano FC (fundado em 1903), que em 1936 se fundiu com a Sociedade Recreativa Lyra da Serra (fundada em 1900) dando origem ao União Lyra Serrano, que reformou o velho campo e o dotou de arquibancadas de madeira, em 1938.

O Clube União Lyra Serrano existe até hoje, sua sede é dos pontos turísticos mais conhecidos da Vila de Paranapiacaba (hoje em território do Município de Santo André – criado apenas em 1938). A
agremiação é reconhecidamente pioneira no ABC, praticando o futebol desde 1903, jamais tendo se profissionalizado.

Mesmo com o estabelecimento de operários ingleses e da prática do futebol dentro do Município, por conta do já citado isolamento e independência da vila ferroviária, o futebol chegou aos núcleos urbanos da cidade por outros meios. Os próprios imigrantes, operários das diversas fábricas da região (instaladas principalmente nos, na época, bairros de São Caetano e da Estação, atual Santo André, mais próximos à ferrovia) já o praticava sem muitas regras estabelecidas.

Foi a atividade fabril e a concentração dos imigrantes nos núcleos urbanos da região, substituindo a esparsa atividade rural dentro das povoações da cidade, predominante desde o estabelecimento dos núcleos coloniais de São Caetano e de São Bernardo, em 1887, que culminou no primeiro grande surto de criação de clubes em nossa região. No Bairro da Estação, maior que a própria sede pela já citada proximidade da ferrovia, surgem o Primeiro de Maio FC (1915) e o
Corinthians FC (1912). Em São Caetano, nasce o São Caetano EC (1914); em Ribeirão Pires, o Ribeirão Pires FC (1917) e, como não poderia deixar de ser, surgem a AA São Bernardo e o Internacional FC, ambos de 1917, em São Bernardo.

O traço em comum entre todos os times é sua origem operária. A criação de todos eles e o fato de o futebol ter se espalhado por todo o vasto território do antigo município, reflete o movimento de popularização do esporte, antes restrito as elites, na Capital – e distantes dos núcleos operários e suburbanos – caso de São Bernardo. Além destas equipes, mais estruturadas e organizadas, cada pequeno bairro ou lugarejo também criava seu próprio time. Sempre com nomes ligados as suas comunidades, causas ou colônias: “estourava” o futebol “de várzea” dentro e fora de São Bernardo. Em nossa cidade, times de existência efêmera se enfrentavam nos mais diversos terrenos convertidos em campos.

Na pequena São Bernardo da época – 71° cidade “mais populosa” do Estado em 1915, contando com apenas 19.668 habitantes – espaço para estes campos, era o que não faltava. E foi justamente o extenso território, a baixa população, o isolamento entre os bairros e a grande quantidade de times criados que acabou levando as duas equipes mais organizadas da Freguesia de São Bernardo ao fim, mas isso já é assunto para o próximo capítulo da nossa história.

Raízes

Como já dito, o futebol chegou até Freguesia de São Bernardo, centro do outrora imenso Município de São Bernardo em 1917, com a fundação de duas agremiações: a Associação Athlética São Bernardo e o Internacional Football Club. O Surgimento dos dois clubes seguiu a tendência local: de popularização do futebol entre as classes operárias, e claro, com a participação maciça do operariado em ambas as associações. O Internacional foi, inclusive, fundado pelo empresário Bortolo Basso, filho de João Basso, um dos pioneiros da indústria moveleira da cidade. Bortolo, que depois seria sócio do Bar Expresso, o mais famoso ponto de encontro da cidade, também foi um dos membros da Associação Amigos de São Bernardo, que foi a principal responsável pela recuperação da autonomia da cidade como município, em 1944, além de um entusiasta do futebol.

Já a Associação Atlética São Bernardo foi fundada seguindo suas agremiações coirmãs dos bairros e distritos vizinhos. Enquanto o Internacional era quase exclusivamente composto por operários da Fábrica de Móveis Irmãos Basso e patrocinado por esta, a “Associação Athlética”, como era chamada, tinha entre suas fileiras representantes de praticamente todos os estabelecimentos fabris e atividades econômicas desenvolvidas na cidade. Possuía um caráter de clube mais aberto e associativo, objetivava representar São Bernardo e buscava até mesmo constituir seu patrimônio: foi a primeira equipe da cidade a ter um campo de futebol, localizado na Rua Marechal Deodoro, em área pertencente ao Sr. Ítalo Setti. O clube inclusive negociou a compra da área com o proprietário, um grande, senão o maior benemérito da história de São Bernardo do Campo.

A área foi negociada por 7$000 (sete contos de réis), divididos em prestações. Apenas a última parcela deixou de ser paga pela AASB. Mesmo assim, simpático a ideia do clube, Ítalo deixou que a AASB seguisse usando o campo, situação que perdurou por muitos anos mais. Criadas no mesmo ano, as duas equipes desenvolveram entre si grande rivalidade. A cada partida, uma queria se impor a outra, com ambas buscando o posto de “representante” da freguesia de São Bernardo. Em 1922, a Associação Athlética enfrentou o Internacional mais uma vez. A goleada aplicada pela AASB foi tão acachapante que, diante da vergonha pelo “revés”, Bortolo resolve acabar com o time e consequentemente com o apoio da fábrica ao Internacional, que sem recursos, não sobrevive. A festa pela goleada sobre o rival durou pouco para os jogadores e sócios da AASB: sem o Internacional e ainda muito abaixo dos mais bem estruturados clubes dos Distritos de Santo André (criado em 1910) e de São Caetano (criado em 1896) , o clube perde a sua razão, os sócios se desligam, e o fim da primeira equipe organizada da cidade, é decretado.

Por ironia, no mesmo ano do fim do rival, 1922. Em 1920, São Bernardo, apenas a porção que atualmente constitui a cidade de São Bernardo do Campo, possuía meros 6.066 habitantes. Poucos para motivar a existência de duas equipes. Com a freguesia dividida entre AASB e Internacional, as forças também se dividiam, coisa que tornou ambas “freguesas” das equipes da atual Santo André, fato que gerava uma grandiosa e crescente rivalidade, também motivada pelas questões que envolviam a política e principalmente a geografia da velha cidade: Santo André já queria a sua soberania sobre o governo municipal. Já era maior, e contava, no mesmo período, com 7.347 habitantes, superando a sede não só nisso, mas também em rendas com a indústria e o comércio. Enquanto as margens da ferrovia deram lugar a grandes empresas, São Bernardo, longe de sua estação e da própria linha férrea (8 quilômetros), seguia com as suas velhas indústrias de móveis e tecelagens, quase todas empresas de cunho familiar. Além disso, a característica urbana do Bairro da Estação, depois Distrito de Santo André era muito mais marcante, enquanto na velha freguesia de S. Bernardo, então estacionada no tempo, a característica rural ainda
prevalecia.

Sem suas equipes mais fortes, o futebol de São Bernardo fica resumido a dezenas de times amadores, que faziam a festa da população da freguesia e também das respectivas colônias (Jardim América e XX de Setembro eram algumas deste período). Entre 1920 e 1928, os times de Santo André e São Caetano crescem e passam a disputar as divisões inferiores do Campeonato Paulista (da APEA). São Bernardo fica para trás. Sem representantes, o maior evento do futebol é realizado nos feriados do Dia do Trabalho, 1 de Maio, uma data essencialmente operária. Nela, a cidade se dividia em duas: os que moravam do lado “de cima” da freguesia, e os que moravam no lado “de baixo”. Os “de cima”, viviam no trecho da Rua Marechal Deodoro (e adjacentes) entre a Praça da Matriz e o atual Paço Municipal. Já os “de baixo”, viviam na porção da freguesia que estava “pra baixo” da Praça da Matriz, em direção ao fim da rua e ao atual Ferrazópolis. Os “de cima” e os “de baixo” montavam duas equipes, que se enfrentavam por um troféu no velho campo outrora ocupado pela AA São Bernardo, sempre no citado feriado. A divisão não tinha nenhum outro objetivo senão o de formar duas equipes que pudessem se enfrentar. Após o dia do trabalho de 1927, observando a movimentação e o entusiasmo gerado pelo enfrentamento, Dante Setti tem a ideia de formar novamente não duas, mas apenas uma equipe que, somando forças, pudesse novamente representar a Freguesia de São Bernardo no futebol, e principalmente, pudesse
fazer frente aos vizinhos.